Exú – Itáns

“Exú Veludinho”

Quando essas duas entidades nos pediram que publicassem suas histórias, achamos muitíssimo interessante, pois ela seria uma história única! Normalmente, publicamos as histórias de cada entidade separadamente, pois cada uma delas possui seus aspectos, suas particularidades e seus pontos únicos.

Esse Exú Mirim ou Exú Menino pode ser chamado de “O Travesso da Madrugada”, enquanto o Senhor Exú Veludo é o “Sisudo das Noites Frias”. São duas figuras totalmente opostas! Enquanto um faz graças e peraltices, o outro esbraveja, fecha a cara e atua. Então, como podem trabalhar juntos? Para entender melhor, precisamos conhecer a história desses dois e compreender porque eles continuam ligados até hoje.

Bom, tudo começou no século IV, na região onde hoje se localiza a Grã-Bretanha, quando Veludinho (Jean Paul) era o irmão mais velho de Veludo (Jilian Klaus) e herdeiro das terras do ducado de Monte Carlo. Quando o pai faleceu (Duque Sergei Carlo Filipo), Jean Paul assumiu as terras e a tutela de Jilian.

Na época, Jean tinha 25 anos e Jilian 16 anos. No acordo firmado entre eles, Jilian deveria receber sua parte da herança aos 21 anos e enquanto isso, ficaria sob os cuidados de Jean Paul. Quando Jilian completou 21 anos, Jean não lhe passou sua parte da herança e ainda o desafiou para um duelo de espadas. No duelo, Jean saiu vitorioso, pois possuía maior experiência.
Passaram-se algumas vidas sem que eles se encontrassem.

Então, reencarnaram novamente em Viena no século X, como irmãos gêmeos porém, sem posses, teriam que trabalhar para sobreviver. Os pais eram lavradores e ensinaram aos filhos seus ofícios desde cedo, mas eles não queriam saber de mexer com a terra e passaram a praticar pequenas furtos.

Em pouco tempo tornaram-se exímios ladrões, assaltando caravanas e excursões reais. Em poucos anos eram os bandidos mais procurados da região. Foram descobertos e mortos pela milícia real.
Os dois espíritos passaram alguns anos perambulando pelo Umbral, depois foram recolhidos e encaminhados para a Colônia Espiritual de Triagem.

Reencarnaram, dessa vez no Brasil central, sob o jugo da escravidão, como pai e filho. Tentaram a fuga para o Kilombo diversas vezes e até auxiliaram diversos negros a escapar. Conseguiram auxiliar algumas pessoas idosas e até mulheres e crianças a fugir. Mas, todas as vezes que tentavam escapar eram presos e levados ao tronco.

João, o pai, que já havia sido o irmão mais novo, tentava proteger o filho (Benedito) de todas as formas. João estava com 43 anos e Benedito tinha 14 anos, nessa época. A mãe “Nhá Maria” já havia falecido e os dois foram os únicos que restaram de toda a família. Muitos de seus amigos e familiares já haviam fugido para o Kilombo das Almas no estados das Minas Gerais.

Era o ano de 1783 e eles tentaram fugir mais uma vez, mas foram apanhados. Dessa vez, morreram no tronco ao som da chibata, sem água e sem comida. Como haviam aprendido a conviver e a trabalhar juntos, foram convidados a representar o culto africano que crescia no Brasil. Eles seriam os guardiões da “Meia Noite” no Culto dos Ancestrais, pois é a hora em que Exú socorre as almas perdidas.

Seriam reconhecidos pelos nomes de “Exú Veludo da Meia Noite” e “Exú Veludinho da Meia Noite e Meia”. A função deles seria impedir que seus irmãos de raça e cor usassem a religião para a vingança e a crueldade.

Eles foram doutrinados no uso correto da magia, aprenderam a desmanchar amarrações e receberam o conhecimento de como neutralizar possessões. Assim, iniciaram suas tarefas no astral inferior das trevas demoníacas.

Aqui abro um parênteses, para explicar que esses dois foram designados para essa tarefa, pois muito antes dessas encarnações que me permitiram descrever, eles foram Magos do Antigo Egipto (há mais de cinco mil anos).

Então, João (Jilian) e Benedito (Jean) já se conheciam há muitos e muitos anos, porém, não conviviam. Foi assim que o Senhor Exú Veludo da Meia Noite e o Pequeno Exú Mirim Veludinho da Meia Noite e Meia começaram a trabalhar antes do surgimento da Umbanda Sagrada como religião no Brasil.

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“Exú Caveira”

Exú Caveira é um Exú, ou seja, uma entidade que trabalha na Umbanda, através da incorporação de médiuns.

Antes de ser uma entidade, Caveira viveu na terra física, assim como todos nós. Acreditamos que nasceu em 670 D.C., e viveu até Dezembro de 698, no Egito, ou de acordo com a própria entidade, “Na minha terra sagrada, na beira do Grande Rio.

Seu nome era Próculo, de origem Romana, dado em homenagem ao chefe da Guarda Romana naquela época. Próculo vivia em uma aldeia, fazendo parte de uma família bastante humilde. Durante toda sua vida, batalhou para crescer e acumular riquezas, principalmente na forma de cabras, camelos e terras.

Naquela época, para ter uma mulher era necessário comprá-la do pai ou responsável, e esta era a motivação que levou Próculo a batalhar tanto pelo crescimento financeiro. Próculo viveu de fato uma grande paixão por uma moça que fora criada junto com ele desde pequeno, como uma amiga. Porém, sua cautela o fez acumular muita riqueza, pois não queria correr o risco de ver seu desejo de união recusado pelo pai da moça.

O destino pregou uma peça amarga em Próculo, pois seu irmão de sangue, sabendo da intenção que Próculo tinha com relação à moça, foi peça chave de uma traição muito grave. Justamente quando Próculo conseguiu adquirir mais da metade da aldeia onde viviam, estando assim seguro que ninguém poderia oferecer maior quantia pela moça, foi apunhalado pelas costas pelo seu próprio irmão, que comprou-a horas antes.

De fato, a moça foi comprada na noite anterior à manhã que Próculo intencionava concretizar seu pedido. Ao saber do ocorrido, Próculo ficou extremamente magoado com seu irmão, porém o respeitou pelo fato ser sangue do seu sangue. Seu irmão, apesar de mais velho, era muito invejoso e não possuía nem metade da riqueza que Próculo havia acumulado. A aldeia de Próculo era rica e próspera, e isto trazia muita inveja a aldeias vizinhas.

Certo dia, uma aldeia próxima, muito maior em habitantes, porém com menos riquezas, por ser afastada do Rio Nilo, começou a ter sua atenção voltada para a aldeia de Próculo. Uma guerra teve início. A aldeia de Próculo foi invadida repentinamente, e pegou todos os habitantes de surpresa.

Estando em inferioridade numérica, foram todos mortos, restando somente 49 pessoas. Estes 49 sobreviventes, revoltados, se uniram e partiram para a vingança, invadindo a aldeia inimiga, onde estavam mulheres e crianças. Muitas pessoas inocentes foram mortas neste ato de raiva e ódio. No entanto, devido à inferioridade numérica, logo todos foram cercados e capturados. Próculo, assim como seus companheiros, foi queimado vivo.

No entanto, a dor maior que Próculo sentiu “não foi a do fogo, mas a do coração”, pela traição que sofreu do próprio irmão, que agora queimava ao seu lado. Esta foi a origem dos 49 Exús da linha de Caveira, constituída por todos os homens e mulheres que naquele dia desencarnaram.

Entre os Exús da linha de Caveira, existem: Tatá Caveira, João Caveira, Caveirinha, Rosa Caveira, Dr. Caveira (7 Caveiras), Quebra-Osso, entre muitos outros. Por motivo de respeito, não será indicado aqui qual Exú da linha de Caveira foi o irmão de Tatá enquanto vivo.

Como entidade, o Chefe-de-falange Tatá Caveira é muito incompreendido, e tem poucos cavalos. São raros os médiuns que o incorporam, pois tem fama de bravo e rabugento. No entanto, diversos médiuns incorporam Exús de sua falange.

Tatá é brincalhão, ao mesmo tempo sério e austero. Quando fala algo, o faz com firmeza e nunca na dúvida. Tem temperamento inconstante, se apresentando ora alegre, ora nervoso, ora calmo, ora apressado, por isso é dado por muitos como louco.

No entanto, Tatá Caveira é extremamente leal e amigo, sendo até um pouco ciumento. Fidelidade é uma de suas características mais marcantes, por isso mesmo Tatá não perdoa traição e valoriza muito a amizade verdadeira. Considera a pior das traições a traição de um amigo. Em muitas literaturas é criticado, e são as poucas as pessoas que têm a oportunidade de conhecer a fundo Tatá Chefe-de-falange. O cavalo demora a adquirir confiança e intimidade com este Exú, pois é posto a prova o tempo todo.

No entanto, uma vez amigo de Tatá Caveira, tem-se um amigo para o resto da vida. Nesta e em outras evoluções!

Laroye Caveira!

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“Exú leva aos homens o oráculo de Ifá”

Em épocas remotas os deuses passaram fome. Às vezes, por longos períodos, eles não recebiam bastante comida de seus filhos que viviam na Terra.Os deuses cada vez mais se indispunham uns com os outros e lutavam entre si guerras assombrosas.

Os descendentes dos deuses não pensavam mais neles e os deuses se perguntavam o que poderiam fazer. Como ser novamente alimentados pelos homens ? Os homens não faziam mais oferendas e os deuses tinham fome. Sem a protecção dos deuses, a desgraça tinha se abatido sobre a Terra e os homens viviam doentes, pobres, infelizes.

Um dia Exú pegou a estrada e foi em busca de solução.

Exú foi até Yemanjá em busca de algo que pudesse recuperar a boa vontade dos homens.

Yemanjá lhe disse: “Nada conseguirás. Xapanã já tentou afligir os homens com doenças, mas eles não vieram lhe oferecer sacrifícios”.

Yemanjá disse:

-“Exú matará todos os homens, mas eles não lhe darão o que comer. Xangô já lançou muitos raios e já matou muitos homens, mas eles nem se preocupam com ele. Então é melhor que procures solução em outra direcção. Os homens não tem medo de morrer. Em vez de ameaçá-los com a morte, mostra a eles alguma coisa que seja tão boa que eles sintam vontade de tê-la. E que, para tanto, desejem continuar vivos”.

Exú retornou o seu caminho e foi procurar Orungã. Orungã lhe disse:

-“Eu sei por que vieste. Os dezasseis deuses tem fome. É preciso dar aos homens alguma coisa de que eles gostem, alguma coisa que os satisfaça.. Eu conheço algo que pode fazer isso. É uma grande coisa que é feita com dezasseis caroços de dendê. Arranja os cocos da palmeira e entenda seu significado. Assim poderás conquistar os homens”.

Exú foi ao local onde havia palmeiras e conseguiu ganhar dos macacos dezasseis cocos. Exú pensou e pensou, mas não atinava no que fazer com eles.

Os macacos então lhe disseram:

-“Exú, não sabes o que fazer com os dezasseis cocos de palmeira? Vai andando pelo mundo e em cada lugar pergunta o que significam esses cocos de palmeira. Deves ir a dezasseis lugares para saber o que significam esses cocos de palmeira. Em cada um desses lugares recolheras dezasseis odús. Recolherás dezasseis histórias, dezasseis oráculos. Cada história tem a sua sabedoria, conselhos que podem ajudar os homens. Vai juntando os odús e ao final de um ano terás aprendido o suficiente. Aprenderás dezasseis vezes dezasseis odús. Então volta para onde moram os deuses. Ensina aos homens o que terás aprendido e os homens irão cuidar de Exú de novo”.

Exú fez o que lhe foi dito e retornou ao Orun, o Céu dos Orixás.

Exú mostrou aos deuses os odus que havia aprendido e os deuses disseram:

-“Isso é muito bom”.

Os deuses, então, ensinaram o novo saber aos seus descendentes, os homens. Os homens então puderam saber todos os dias os desígnios dos deuses e os acontecimentos do porvir. Quando jogavam os dezasseis cocos de dendê e interpretavam o odu que eles indicavam, sabiam da grande quantidade de mal que havia no futuro. Eles aprenderam a fazer sacrifícios aos Orixás para afastar os males que os ameaçavam. Eles recomeçavam a sacrificar animais e a cozinhar suas carnes para os deuses. Os Orixás estavam satisfeitos e felizes. Foi assim que Exú trouxe aos homens o Ifá.

Lenda tiradas do livro
Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi – 2001

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“Exú vinga-se e exige o privilégio das primeiras homenagens”

Exú era o irmão mais novo de Ogum, Odé e outros orixás .Era tão turbulento criava tanta confusão que um dia o rei já não suportando sua malfazer índole, resolveu castigá-lo com severidade.

Para impedir que fosse aprisionado, os irmãos o aconselharam a deixar o país. Mas enquanto Exú estava no exílio, seus irmãos continuavam a receber festa e louvações. Exú não era mais lembrado, ninguém tinha notícias de seu paradeiro. Então, usando mil disfarces, Exú visitava seu país, rondando, nos dias de festa, as portas dos velhos santuários.

Mas ninguém o reconhecia assim disfarçado e nenhum alimento lhe era ofertado. Vingou-se ele, semeando sobre o reino toda a sorte de desassossego, desgraça e confusão.Assim o rei decidiu proibir todas as actividades religiosas, até que descobrissem as causas desses males.

Então os Babalorixás reuniram-se em comitiva e foram consultar um Babalaô que residia nas portas da cidade. O Babalaô jogou os búzios e Exú foi quem falou no jogo. Disse nos odus que tinha sido esquecido por todos. Que exigia receber sacrifícios antes do demais e que fossem para ele os primeiros cânticos cerimoniais. O Babalaô jogou os búzios e disse que oferecessem um bode e sete galos a Exú.

Os Babalorixás caçoaram do Babalaô, não deram a menor importância às suas recomendações e ficaram por ali sentados, cantando e rindo dele. Quando quiseram levantar-se para ir embora, estavam grudados nas cadeiras. Sim era mais uma das ofensas de Exú!

O Babalaô então pôs a mão no ombro de cada um e todos puderam levantar-se livremente. Disse a eles que fizessem como fazia ele próprio: que o primeiro sacrifício fosse para acalmar Exú. Assim convencidos, foi o que fizeram os pais e mães-de-santo, naquele dia e sempre desde então.

Lenda tirada do livro
Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi – 2001

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“Exú atrapalha-se com as palavras”

No começo dos tempos estava tudo em formação, lentamente os modos de vida na Terra forma sendo organizados, mas havia muito a ser feito.
Toda vez que Orunmilá vinha do Orum para ver as coisas do Aiê, era interrogado pelos orixás, humanos e animais, ainda não fora determinado qual o lugar para cada criatura e Orunmilá ocupou-se dessa tarefa.
Exú propôs que todos os problemas fossem resolvidos ordenadamente, ele sugeriu a Orunmilá que a todo orixá, humano e criatura da floresta fosse apresentada uma questão simples para a qual eles deveriam dar resposta direta, a natureza da resposta individual de cada um determinaria seu destino e seu modo de viver, Orunmilá aceitou a sugestão de Exú.
E assim, de acordo com as respostas que as criaturas davam, elas recebiam um modo de vida de Orunmilá, uma missão, enquanto isso acontecia, Exú, travesso que era, pensava em como poderia confundir Orunmilá.
Orunmilá perguntou a um homem: “Escolhes viver dentro ou fora?”. “Dentro”, o homem respondeu, e Orunmilá decretou que doravante todos os humanos viveriam em casas.
De repente, Orunmilá se dirigiu a Exú: “E tu, Exú? Dentro ou fora?”. Exú levou um susto ao ser chamado repentinamente, ocupado que estava em pensar sobre como passar a perna em Orunmilá, e rápido respondeu: “Ora! Fora, é claro”, mas logo se corrigiu: “Não, pelo contrário, dentro”, Orunmilá entendeu que Exú estava querendo criar confusão, falou pois que agiria conforme a primeira resposta de Exú, disse: “Doravante vais viver fora e não dentro de casa”.
E assim tem sido desde então, Exú vive a céu aberto, na passagem, ou na trilha, ou nos campos, diferentemente das imagens dos outros orixás, que são mantidas dentro das casas e dos templos, toda vez que os humanos fazem uma imagem de Exú ela é mantida fora.

Lenda tirada do livro
Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi – 2001

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Porque Exú Recebe Oferendas Antes Dos Outros Orixás

Exú foi o primeiro filho de Yemanjá e Oxalá. Ele era muito levado e gostava de fazer brincadeiras com todo mundo. Tantas fez que foi expulso de casa. Saiu vagando pelo mundo, e então o país ficou na miséria, assolado por secas e epidemias. O povo consultou Ifá, que respondeu que Exú estava zangado porque ninguém se lembrava dele nas festas; e ensinou que, para qualquer ritual dar certo, seria preciso oferecer primeiro um agrado a Exú. Desde então, Exú recebe oferendas antes de todos, mas tem que obedecer aos outros Orixás, para não voltar a fazer tolices.

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Exú Instaura O Conflito Entre Yemanjá, Oiá E Oxum

Um dia, foram juntas ao mercado Iansã e Oxum, esposas de Xangô, e Iemanjá, esposa de Ogum. Exú entrou no mercado conduzindo uma cabra, viu que tudo estava em paz e decidiu plantar uma discórdia. Aproximou-se de Iemanjá, Iansã e Oxum e disse que tinha um compromisso importante com Orumilá.

Ele deixaria a cidade e pediu a elas que vendessem sua cabra por vinte búzios. Propôs que ficassem com a metade do lucro obtido. Iemanjá, Oiá e Oxum concordaram e Exú partiu. A cabra foi vendida por vinte búzios. Iemanjá, Iansã e Oxum puseram os dez búzios de Exú a parte e começaram a dividir os dez búzios que lhe cabiam. Iemanjá contou os búzios. Haviam três búzios para cada uma delas, mas sobraria um. Não era possível dividir os dez em três partes iguais. Da mesma forma Iansã e Oxum tentaram e não conseguiram dividir os búzios por igual. Aí as três começaram a discutir sobre quem ficaria com a maior parte.

Iemanjá disse: “É costume que os mais velhos fiquem com a maior porção. Portanto, eu pegarei um búzio a mais”.  Oxum rejeitou a proposta de Iemanjá, afirmando que o costume era que os mais novos ficassem com a maior porção, que por isso lhe cabia.

Iansã intercedeu, dizendo que, em caso de contenda semelhante, a maior parte caberia à do meio. As três não conseguiam resolver a discussão.

Não havia meio de resolver a divisão. Exú voltou ao mercado para ver como estava a discussão. Ele disse: “Onde está minha parte?”.

Elas deram a ele dez búzios e pediram para dividir os dez búzios delas de modo eqüitativo. Exú deu três a Iemanjá, três a Oiá e três a Oxum. O décimo búzio ele segurou. Colocou-o num buraco no chão e cobriu com terra. Exú disse que o búzio extra era para os antepassados, conforme o costume que se seguia no Orun.

Toda vez que alguém recebe algo de bom, deve-se lembrar dos antepassados. Dá-se uma parte das colheitas, dos banquetes e dos sacrifícios aos Orixás, aos antepassados. Assim também com o dinheiro. Este é o jeito como é feito no Céu. Assim também na terra deve ser. Quando qualquer coisa vem para alguém, deve-se dividi-la com os antepassados. “Lembrai que não deve haver disputa pelos búzios.”

Iemanjá, Oiá e oxum reconheceram que Exú estava certo. E concordaram em aceitar três búzios cada.

Todos os que souberam do ocorrido no mercado de Oió passaram a ser mais cuidadosos com relação aos antepassados, a eles destinando sempre uma parte importante do que ganham com os frutos do trabalho e com os presentes da fortuna.

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Exú Torna-Se O Amigo Predileto De Orumilá

Como se explica a grande amizade entre Orumilá e Exú, visto que eles são opostos em grandes aspectos?

Orumilá, filho mais velho de Olorum, foi quem trouxe aos humanos o conhecimento do destino pelos búzios. Exú, pelo contrario, sempre se esforçou para criar mal-entendidos e rupturas, tanto aos humanos como aos Orixás. Orumilá era calmo e Exú, quente como o fogo.

Mediante o uso de conchas adivinhas, Orumilá revelava aos homens as intenções do supremo deus Olorum e os significados do destino. Orumilá aplainava os caminhos para os humanos, enquanto Exú os emboscava na estrada e fazia incertas todas as coisas. O caráter de Orumilá era o destino, o de Exú, era o acidente. Mesmo assim ficaram amigos íntimos.

Uma vez, Orumilá viajou com alguns acompanhantes. Os homens de seu séqüito não levavam nada, mas Orumilá portava uma sacola na qual guardava o tabuleiro e os Obis que usava para ler o futuro.

Mas na comitiva de Orumilá muitos tinham inveja dele e desejavam apoderar-se de sua sacola de adivinhação. Um deles mostrando-se muito gentil, ofereceu-se para carregar a sacola de Orumilá. Um outro também se dispôs à mesma tarefa e eles discutiram sobre quem deveria carregar a tal sacola.

Até que Orumilá encerrou o assunto dizendo: “Eu não estou cansado. Eu mesmo carrego a sacola”.

Quando Orumilá chegou em casa, refletiu sobre o incidente e quis saber quem realmente agira como um amigo de fato. Pensou então num plano para descobrir os falsos amigos. Enviou mensagens com a notícia  de que havia morrido e escondeu-se atrás da casa, onde não podia ser visto. E lá Orumilá esperou.

Depois de um tempo, um de seus acompanhantes veio expressar seu pesar. O homem lamentou o acontecido, dizendo ter sido um grande amigo de Orumilá e que muitas vezes o ajudara com dinheiro. Disse ainda que, por gratidão, Orumilá lhe teria deixado seus instrumentos de adivinhar.

A esposa de Orumilá pareceu compreendê-lo, mas disse que a sacola havia desaparecido. E o homem foi embora frustrado. Outro homem veio chorando, com artimanha pediu a mesma coisa e também  foi embora desapontado. E assim, todos os que vieram fizeram o mesmo pedido. Até que Exú chegou.

Exú também  lamentou profundamente a morte do suposto amigo. Mas disse que a tristeza maior seria da esposa, que não teria mais pra quem cozinhar. Ela concordou e perguntou se Orumilá não lhe devia nada. Exú disse que não. A esposa de Orumilá persistiu, perguntando se Exú não queria a parafernália de adivinhação. Exú negou outra vez. Aí Orumilá entrou na sala, dizendo: “Exú, tu és sim meu verdadeiro amigo!”. Depois disso nunca  teve amigos tão íntimos, tão íntimos como Exú e Orumilá.

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Vingança de Exú

Um homem rico tinha uma grande criação de galinhas. Certa vez, chamou um pintinho muito travesso de Exú, acrescentando vários xingamentos. Para se vingar, Exú fez com que o pinto se tornasse muito violento. Depois que se tornou galo, ele não deixava nenhum outro macho sossegado no galinheiro: feria e matava todos os que o senhor comprava. Com o tempo, o senhor foi perdendo a criação e ficou pobre. Então, perguntou a um babalaô o que estava acontecendo. O sacerdote explicou que era uma vingança de Exú e que ele precisaria fazer um ebó pedindo perdão ao Orixá. Amedrontado, o senhor fez a oferenda necessária e o galo se tornou calmo, permitindo que ele recuperasse a produção

 

Axé
Mãe Vanda D’Oyá
Last updated: 2016-11-28